Um bunker (sim, um abrigo nuclear) na lavandaria do prédio na casa temporária

By Rita Varandas - terça-feira, setembro 27, 2016


Fui a medo, confesso, porque não sabia o que esperar, porque no prédio ninguém me conhece e porque, possivelmente, a idade me tornou (um pouquinho) mais receosa. Não queria mesmo ser apanhada por um suíço, sobretudo com a máquina de fotografar na mão. Eles são tão reservados e privilegiam tanto a sua privacidade que longe de mim interferir na ordem natural das coisas. 

Mas a curiosidade falou mais alto. Desci ao piso -1, as luzes automáticas foram acendendo à medida que caminhava nos corredores estreitos e longos, quando comecei a ouvir o barulho da água nos canos. Normal, estando num nível inferior. Ouvi também a porta da garagem abrir lá ao fundo e algumas vozes. Durante uns segundos permaneci imóvel. 

Verdade seja dita, não procurava um bunker - longe disso - mas andava à procura da sala das máquinas. Na Suiça é comum os prédios terem máquinas de lavar e secar partilhadas e após duas semanas, precisava mesmo de encontrar esta maquinaria pesada :)


Já tinha lido que a Suiça dispunha de abrigos nucleares para toda a população, mas encontrar um debaixo dos nossos pés, foi qualquer coisa de surreal. Segundo uma contagem de 2006, existem 300.000 bunkers construídos nas habitações, hospitais e instituições, mais 5100 abrigos públicos.

O peso das portas blindadas e a largura são impressionantes, mas este nem é dos mais avançados. Há vários tipos de abrigos:
  • Os que permitem às pessoas sobreviverem durante cerca de uma semana, protegendo os ocupantes da onda de choque, bem como dos incêndios e explosões subsequentes;
  • Há os que permitem uma estadia mais longa - de 6 meses - e incluem proteção contra o apelidado "inverno nuclear";
  • E por último, aqueles que permitem (sobre)viver no subsolo até que os níveis de radioactividade lá fora sejam compatíveis com a vida. 
Não faço ideia se em Portugal existem abrigos como estes. Com certeza, não terão capacidade para a população inteira, mas julgo que o lema "mais vale prevenir do que remediar" tem a cara dos Suiços.



Foi no período da guerra fria que uma lei determinou a existência de bunkers em todas as zonas habitacionais, para construções após 1971. Mais tarde, em 1995, o parlamento suiço recebeu um pedido para a supressão deste projeto de lei, tendo sido aceite em 2006 pelo Conselho Nacional, mas com a objecção do Governo.

Apesar de já não ser regra, os suiços encontram sempre forma de tornar mais ou menos obrigatório o que não está na lei e que consideram ser importante. Os projectos para a construção de novos edifícios de habitação que incluam um abrigo nuclear beneficiam de subvenções estatais. Em contraponto, os que não apresentam bunkers, pagam uma taxa adicional.



Depois de corredores e mais portas blindadas, eis que encontro a lavandaria. Claro está que não bastava chegar e utilizar. Pfff... Para usufruir deste espaço precisamos de um cartão recarregável - portanto, presume-se alguma contenção na utilização de água e electricidade - e é necessário agendar um dia e uma hora.
Eu já não tinha vontade das tarefas domésticas, com estes "obstáculos", apeteceu-me por a roupa numa lavandaria :P





Voltando aos abrigos nucleares (porque fiquei realmente fascinada), pesquisei e descobri que há tours por toda a Suiça para conhecer diversos bunkers, sobretudo os que estrategicamente foram construídos pelos militares e estão camuflados nos confins das montanhas. Há ainda outros que estão à venda. Verdade. Qual casa de praia ou monte Alentejano... :) 

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